29/09
Pôncio Pilatos é indicado como ministro do STF.
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Como todos sabemos, Pôncio Pilatos emprestou à
civilização humana o registro de um de seus episódios mais marcantes, o qual
é lembrado com repúdio, quando ligado a crucificação de Jesus, ou como
arquétipo, por ter dado origem à “concepção anti-ética” do conhecido “lavar
as mãos”, cerimônia por meio da qual uma pessoa ou autoridade se omite de
pronunciar julgamento sob sua responsabilidade quando chamado a decidir sobre
alguma coisa ou pessoa, no propósito exclusivo de transferir para terceiros a
obrigação “moral”ou “legal” que lhe cabia.
Pilatos, prefeito da província da Judéia, entre os anos 26 e 36 d.c., se notabilizou por ter sido a autoridade do Império Romano que, ao invés de julgar o mais importante caso da humanidade contemporânea, preferiu omitir-se de fazê-lo, provocando, com esta omissão, a morte de “Jesus”.
A tragédia que envolve a morte de Cristo e o próprio Pilatos, portanto, serão
eternamente lembrados por vários aspectos: Primeiro, porque a crucificação
foi resultado da omissão de Pilatos que, mesmo já sabendo dos feitos de Jesus
e que ele se apresentava como filho de Deus, preferiu “lavar as mãos”,
transferindo ao povo local o direito de escolher entre a morte de Jesus (que,
entre os comuns, era uma pessoa simples, recém-chegado da Judéia) e de um
ladrão, a quem todos conheciam e guardavam simpatia; Segundo, porque
“Pilatos” conseguiu a “proeza” de julgar sem julgar ou, mais comumente
falando, inventou “o lavar as mãos”, manipulando o resultado do julgamento
por meio da estratégia de transferir sua responsabilidade para a emoção
“irracional das massas”, quando era necessário agradar ao Imperador, cujo
poder diziam estar ameaçado pela existência de Cristo; Terceiro, porque o
episódio passou a ser a prova concreta de que, de igual forma, a história e o
tempo não perdoam e não esquecem os ditadores, os inescrupulosos e os
assassinos; Quarto, e sob o ponto de vista certamente mais importante, porque
a conjunção da existência de “Pilatos”, da “crucificação” e do “Lavar as
Mãos”, resultaram na morte do filho de Deus.
Por estas razões, face deste brilhante curriculum de Pôncio Pilatos, no dia
23 de setembro de 2010, o homem ou o seu comportamento, na prática, sofreram
uma espécie surpreendente de indicação para preencher a vaga de Ministro no
Supremo Tribunal Federal, criada com a aposentadoria do Ministro Eros Grau.
Assim, presume-se porque durante o julgamento que aconteceu no STF, nos dias 23 e 24 de
setembro, a decisão serviu para enaltecer – ad memorium - o prefeito da
Judéia. Afinal, a mais alta corte do Brasil conseguiu a proeza de julgar sem
julgar a Lei que pretende introduzir no Brasil a proibição de concorrerem as
eleições os políticos com condenações criminais.
Este momento de Pilatos na história do STF ou da pseudo-democracia brasileira
aconteceu como consequência do fato de nosso mais elevado Tribunal estar com
sua composição incompleta. O STF,
que deve ter 11 Ministros, número ímpar que evita o empate, circunstância que
caracteriza “julgar sem julgar”, hoje conta somente com 10 Ministros, número
que permite que aconteça o indesejado empate.
A falta do 11º Ministro acontece exatamente porque o atual Presidente da
República, há algum tempo, não se sabe se de propósito, ou porque está muito
ocupado durante este período eleitoral, ainda não indicou o novo Ministro do STF para substituir o
colega que se aposentou recentemente. Entretanto, estes fatos não podem ser
utilizados para dizer que o nosso Presidente possa ser ou queira comparar-se
com o Imperador Romano que designou Pilatos à Prefeitura da Judéia. Tudo é uma
mera coincidência!
Por esta razão, o resultado do julgamento do STF, anunciado na quinta-feira passada,, dia
23/09, que tratava sobre a constitucionalidade ou não da Lei que implanta a
política do “Ficha Limpa”, ficou empatado em cinco votos a favor da ética
política e cinco votos contra a ética, representando um verdadeiro “lavar as
mãos”, até porque a maior parte dos votos dos ministros já se sabia o
conteúdo, uma vez que o tema tinha sido julgado no TSE, que é composto pelos
próprios Ministros do STF.
Contudo, houve um voto de minerva. Não do presidente do STF, que abriu mão de sua
obrigação de proferir o voto de desempate, alegando que o presidente do STF, contrariamente ao
Regimento Interno da Casa, não é diferente dos demais ministros, em que pese
só ele possa assumir a vaga de Presidente da República, quando ausentes,
simultaneamente, o próprio Presidente da República e o Presidente da Câmara
de Deputados Federais. Coube ao memorável Ministro Marco Aurélio Mello, em
seu voto, citar que todos deveriam chamar para desempatar a votação aquele
que ainda não tinha indicado o 11° Ministro do STF, embora isto seja de sua competência,
neste importante momento da história política brasileira.
A partir desta enorme confusão e desrespeito à vontade democrática da
população, fica a seguinte pergunta: o Ministro Marco Aurélio, quando votou
daquela maneira, estava chamando Pôncio Pilatos ao plenário, ou ele pensava
no Imperador de Roma, ou alguém mais próximo de nós?
Não importa, afinal de contas, é tarde. O povo brasileiro, embora já o tenha
ressuscitado das cinzas de vários escândalos políticos, entre eles, a
ditadura, a cassação de Collor e o mensalão, desta vez está morto e
crucificado no seu propósito de “limpar” a política nesta eleição de 2010.
OAB |
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