Brutal perseguição religiosa na ex-URSS
Recente
obra, baseada em documentos dos próprios arquivos da KGB, desvenda o
requinte de perversidade de que foram vítimas numerosos católicos ––
sacerdotes, religiosas e leigos –– muitos dos quais receberam
destemidamente a gloriosa coroa do martírio
Juan Miguel Montes
Correspondente
Correspondente
Roma – "Reafirmo
que sou hostil ao poder soviético. Reafirmo que o comunismo é
incompatível com o cristianismo, que estão em luta, e nessa luta estou
inteiramente do lado do cristianismo contra o comunismo", proclamou
destemidamente Nora Rubasëva, uma das numerosas freiras católicas
submetida a interrogatórios e maus tratos pelos comunistas.
Esse
admirável testemunho de fé é registrado numa obra ainda inédita e
desconhecida no Brasil a respeito da perseguição anti-religiosa efetuada
pelos soviéticos.
Tal obra chegou a nossas mãos
mediante tradução italiana, sendo seu conteúdo particularmente
significativo para aqueles que guardam no coração as auspiciosas
palavras de Nossa Senhora em Fátima sobre a conversão da Rússia.
Se il mondo vi odia...(Se
o mundo vos odeia...), de Irina Isopova (Ed. Casa di Matriona, Milão,
1977, 315 pp.), talvez seja o relato mais completo que se tenha
publicado sobre a história da perseguição movida contra os católicos no
antigo império soviético. Certamente é o mais documentado, tendo a
autora realizado pesquisas durante cinco anos nos arquivos da famosa
KGB.
Nele é traçado um panorama histórico de
singular clareza, desde a situação do catolicismo no tempo dos czares, e
que percorre sucessivamente as diversas etapas do calvário sofrido
pelos católicos durante o comunismo, até 1955.
É
interessante ressaltar que, nos últimos anos do czarismo, apesar das
dificuldades institucionais contra a Igreja Católica, o catolicismo era
uma realidade florescente na Rússia, "não tanto quantitativamente quanto qualitativamente".
Isto se devia às conversões bastante freqüentes de conhecidas
personalidades da elite cultural e social do país. Um fenômeno análogo
ao Movimento de Oxford, observado na Inglaterra vitoriana, quando representativas personalidades daquela nação converteram-se ao catolicismo.
Entretanto,
nos anos subseqüentes à deflagração da revolução russa, as principais
figuras dessa primavera católica acabaram no exílio, nos campos de
concentração ou diante dos pelotões de fuzilamento. Mesmo assim, alguns
dentre eles nutriram a ilusão de que, com os novos homens do poder, as
coisas tornar-se-iam mais fáceis do que antes.
Não faltaram, como na época dos lapsi
romanos, as tristes defecções. Pessoas de grande prestígio que
sucumbiram psíquica e fisicamente aos interrogatórios e torturas dos
carcereiros. A legalidade não mais existia, os processos podiam ser
judiciais ou extra-judiciais, estes conduzidos pela polícia política e
inapeláveis...
Repete-se o heroísmo dos primeiros mártires cristãos
Entretanto,
as páginas mais belas foram escritas por aqueles e aquelas que
permaneceram fiéis até o fim. Muitas eram freiras, como as do Mosteiro
fundado pela convertida Anna Abrikosova. Esta senhora, prestigiosa
figura da alta sociedade e da cultura, havia se separado do marido, de
comum acordo com ele, para seguir a vida religiosa. O marido, também
convertido, foi ordenado sacerdote e morreu no exílio.
Uma das religiosas desse convento, Nora Rubasëva, submetida a interrogatórios, declarou: "Reafirmo
que sou hostil ao poder soviético. Reafirmo que o comunismo é
incompatível com o cristianismo, que estão em luta, e nessa luta estou
inteiramente do lado do cristianismo contra o comunismo" (p. 60).
A freira Kamilla Krusel'nickaja, fuzilada em 1937, proclamou: "Tendo
fé, estou em oposição ao poder soviético. E reafirmo que na Rússia não
se pode professar abertamente a própria fé. A Igreja é perseguida em
vários sentidos, os seus melhores filhos estão oprimidos" (p. 65).
É
impossível não estabelecer um paralelo entre a altaneria com que essa
mártir contemporânea arrostou seus iníquos juízes marxistas -- depois, o
pelotão de fuzilamento -- e o espírito destemido mediante o qual Santa
Cecília e tantas outras mártires da Antiguidade pagã enfrentaram
pretores romanos e crudelíssimos suplícios!
Às
vezes as freiras se queixavam dos sacerdotes que cediam aos
interrogatórios. Assim Soror Vera Gorodec, do Mosteiro dominicano de São
Pedro, comenta um desses tristes episódios com o Bispo Mons. Neveu,
Administrador apostólico para os católicos russos: "Como era terrível pensar que sacerdotes, que nós chamávamos pais, haviam nos traído e ao seu Bispo"
(p. 77). Esse eclesiástico, pároco da igreja de São Luís dos Franceses
recebeu na Igreja Católica numerosos cismáticos convertidos, sacerdotes e
leigos, que haviam pertencido à chamada Igreja Ortodoxa
(I.O.). Eles não quiseram seguir seus hierarcas, oficialmente
comprometidos com o regime comunista após a desconcertante "Carta
Pastoral" do Metropolita Sérgio, de 16 de julho de 1927. Foi sobretudo
esse fato que atiçou as iras dos soviéticos contra os sacerdotes e a
comunidade daquela igreja católica de Moscou.
Também
nos campos de concentração as religiosas praticavam de forma indômita, a
virtude da fortaleza. Algumas escreveram a um grupo de apoio na
Alemanha uma carta interceptada pela NKVD: "Sejamos fortes no
espírito, não existe nem campo de concentração nem NKVD que possam
afastar do reto caminho os filhos e as filhas da única Igreja católica.
Nós procuramos também aqui reunir devotos fervorosos da Igreja católica" (p. 78).
Mons. Neveu, referindo-se às numerosas religiosas vítimas da repressão, escreveu: "Estou
orgulhoso de prestar homenagem à virtude dessas santas.... Nas prisões,
nos campos de concentração, nos trabalhos forçados, nos lugares de
deportação: por todas as partes onde as religiosas permaneceram fiéis à
própria vocação e aos próprios santos votos, difundiram a fragrância de
Cristo e a luz da nossa santa fé!" (p. 83).
32 Sacerdotes fuzilados no espaço de dois meses!
Entre
1928 e 1930, o Papa Pio XI, que até então esperara pacientemente sinais
de boa vontade da parte dos soviéticos, denunciou repetidamente diante
do mundo as perseguições religiosas em curso na Rússia. A única resposta
soviética foi um tratamento ainda mais cruel em relação aos católicos
nos campos de concentração.
Se já em 1938 não se
achava em liberdade um só sacerdote ou fiel da única igreja católica de
Moscou (São Luís dos Franceses), durante a II Guerra Mundial piorou
ainda muito mais a situação dos católicos na União Soviética. "A
Igreja católica assumiu ainda mais o papel de inimigo interno. Os órgãos
da NKVD prendiam todos os católicos que despertavam alguma dúvida; e a
mínima suspeita de 'espionagem` terminava com o fuzilamento".(p. 81)
E assim continuaram as coisas, ao menos até 1948. Em 1956 "não restava vivo qualquer sacerdote de rito oriental, que pudesse animar ao menos uma comunidade católica russa" (p. 83).
A
rivalidade que às vezes opusera católicos de rito latino aos de rito
bizantino-eslavo se desfez completamente quando padres poloneses da
Ucrânia foram presos, e encontraram o exarca Fëdorov e os seus irmãos
greco-romanos no primeiro campo de concentração da história, o das Ilhas
Solovki.
As páginas que se descrevem a vida e a
espiritualidade dos deportados em Solovki são comovedoras. No diário
deixado por Mons. Boleslas Sloskans, Bispo latino de Minsk-Mohilev,
lemos:
"No início de junho de 1929 foram
deportados para Solovki 22 representantes do clero católico.
Amontoaram-nos todos juntos numa só cabana e nos isolaram completamente
dos outros detidos. A vantagem era que, sendo todos sacerdotes, desde o
início havíamos pensado sobretudo como e onde celebrar a Missa. Com duas
malas improvisamos um altar no sótão e, naturalmente, às escondidas,
celebrávamos todos os dias" (p. 102).
Um outro grupo que padeceu nos campos de concentração das Ilhas Solovki foi o das figuras de destaque entre os católicos da República Alemã Autônoma do Volga. Seus sacerdotes
foram acusados pelas autoridades comunistas de haverem incitado os
camponeses alemães à rebelião contra a coletivização das terras e de
fazer espionagem para o Vaticano e a Alemanha. Por seu lado, os
poloneses foram acusados de trabalhar pela Polônia e pela Santa Sé.
Ao
concluir o capítulo referente ao calvário de católicos russos,
ucranianos, poloneses e alemães na extinta União Soviética, escreve a
autora:
"Todos os processos coletivos contra
sacerdotes católicos nos anos 1937-38 foram concluídos com o
fuzilamento. O mesmo ocorreu nos campos de concentração. Nas ilhas
Solovki, por exemplo, apenas em outubro e novembro de 1937 foram
fuzilados 32 sacerdotes católicos" (p. 116).
Sacerdotes oferecem a própria vida por zelo apostólico
A autora narra ainda, com base em farta documentação, o heroísmo dos sacerdotes do Seminário Russicum, que penetravam clandestinamente na União Soviética entre os anos 1939-1955.
Com efeito, a Santa Sé havia organizado em Roma, junto à Congregação para as Igrejas Orientais, o Russicum, ou seja, um seminário internacional onde os estudantes aprendiam "a
língua, a literatura e a história russa, bem como a liturgia adotada
pela igreja ortodoxa, e também eram explicados os fundamentos da
ideologia soviética" (p. 168).
Não se sabe
exatamente quantos desses clérigos conseguiram entrar na Rússia após
seus estudos na Cidade Eterna, mas a autora afirma que ao menos 15 se
registraram oficialmente para celebrar a missa nas igrejas católicas
russas. Muitos desapareceram "sem deixar vestígio", pelo menos dois foram fuzilados, outros ainda retornaram à pátria após um longo período nos campos de concentração.
Entre os ex-alunos do Russicum,
o padre italiano Pietro Leoni merece particular menção. Muito querido
por seus fiéis, grande orador em língua russa e homem de grande
espiritualidade, foi internado em campo de concentração devido à sua
total franqueza e destemor nas críticas que fazia dos soviéticos. Após
anos de trabalho forçado nas condições mais inumanas, continuava com
espírito indômito: interrompia as conferências de doutrinamento
organizadas pela polícia para os detidos, produzindo verdadeiras
balbúrdias, dizia a verdade sem rebuços nos interrogatórios da polícia,
resistia a todas as punições sem nunca se dobrar. Por fim, sua
tenacidade fez com que o regime, por motivos diplomáticos, julgasse mais
prudente deixá-lo voltar ao Ocidente, o que se deu em 1955.
Irina Isopova conclui seu comovente livro com um utilíssimo elenco alfabético dos confessores da fé na URSS: exilados, fuzilados, desaparecidos ou que suportaram durante anos a terrível vida do Arquipélago Gulag.
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Comunistas e cismáticos:
nova aliança contra a Igreja Catolica
Recentemente
uma aliança estabelecida entre a hierarquia cismática da chamada
Igreja Ortodoxa (I.O) e deputados nacionais-comunistas possibilitou a
aprovação na Duma (Parlamento russo) de uma lei fortemente
discriminatória contra a Igreja Católica, a qual, segundo eles, não
teria um verdadeiro passado histórico na Rússia. O livro de Irina
Isopova desmente com fatos documentados essa falácia, demonstrando que
há muito tempo a árvore sagrada da Igreja Católica está presente na
Rússia e suas raízes se nutriram do sangue e dos sofrimentos de
numerosos mártires.
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Inexplicável atitude dos chefes dos PCs ocidentais
Por
que continuaram comunistas os chefes dos PCs, em todo o Ocidente,
apesar de conhecerem a miséria provocada pelo comunismo nas nações
juguladas por Moscou? Por que, conhecendo a situação miserável da
Rússia e das nações cativas, consentiram em chefiar um partido
político que não tinha outro objetivo senão arrastar para essa
situação de escravidão e vergonha os próprios países do Mundo Livre, em
que haviam nascido? Por que, enfim, desejavam, essa tenebrosa
situação? Por que ocultavam a verdade a seus próprios asseclas, alguns
dos quais-- pelo menos -- se a conhecessem, teriam desertado das
fileiras vermelhas?
Por que os historiadores
ocidentais, durante o longo período de dominação soviética, narraram
de modo otimista o que se passou no mundo comunista? Por que tais
historiadores se contentaram em dizer tão pouca coisa sobre desgraças
tão imensas?
Estas e muitas outras penetrantes indagações formulou-as em alto e bom som o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no Manifesto Comunismo e anticomunismo na orla da última década deste milênio,
publicado na "Folha de S. Paulo" de 14-2-1990 e transcrito em
numerosos órgãos de imprensa tanto do Brasil quanto do exterior.
Em tal manifesto o insigne pensador católico ainda lança a seguinte apóstrofe: "Esta
atitude dos líderes comunistas das várias nações livres, conjurados
com Moscou para desgraçarem cada qual a respectiva pátria, há de ser
considerada, pela posteridade, um dos grandes enigmas da História".
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